Pesquisa revela que 1 em cada 10 pessoas pode ter resistência ao Ozempic
Estudo internacional indica que variantes genéticas podem reduzir a eficácia de medicamentos à base de GLP-1, usados no tratamento de diabetes e obesidade.
Uma nova pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, revelou que cerca de uma em cada dez pessoas pode apresentar resistência a medicamentos baseados em GLP-1, como o Ozempic e o Wegovy. Esses remédios são amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e também no controle da obesidade por promoverem maior sensação de saciedade e controle da glicose no sangue.
O estudo, publicado na revista científica Genome Medicine em 29 de março, identificou que variantes genéticas específicas, presentes em aproximadamente 10% da população, estão associadas ao fenômeno chamado “resistência ao GLP-1”. Nesses casos, mesmo com níveis elevados do hormônio no organismo, a eficácia biológica é reduzida, dificultando o controle da glicemia ao longo do tratamento.
Ao longo de uma década, os pesquisadores combinaram experimentos realizados em humanos e camundongos, além da análise de dados de ensaios clínicos com medicamentos para diabetes. Os resultados mostraram que pacientes com essas variantes genéticas tiveram mais dificuldade para reduzir os níveis de glicose no sangue, mesmo após meses de uso contínuo dos fármacos.
Segundo a pesquisadora Anna Gloyn, da Universidade de Oxford, identificar previamente quais pacientes respondem melhor ao tratamento pode acelerar a escolha do medicamento mais adequado. A equipe concentrou a investigação em variantes do gene responsável pela enzima PAM, essencial para ativar hormônios importantes no organismo, incluindo o GLP-1.
Os testes indicaram que pessoas com alterações nesse gene apresentaram níveis mais altos de GLP-1 circulante, mas sem melhora proporcional no controle glicêmico. Isso sugere que o organismo desses pacientes precisa de maior quantidade do hormônio para obter o mesmo efeito, caracterizando um quadro de resistência.
Outro achado relevante foi que essa resistência não interfere na ação de medicamentos tradicionais para diabetes, como a metformina e as sulfonilureias. Isso indica que o fenômeno está relacionado especificamente aos medicamentos que atuam na via do GLP-1.
Implicações para o tratamento
A análise clínica com mais de mil participantes mostrou que pacientes com variantes genéticas tiveram menor sucesso na redução da hemoglobina glicada (HbA1c), um dos principais indicadores do controle do diabetes. Após seis meses de tratamento, entre 11,5% e 18,5% desses pacientes atingiram as metas recomendadas, enquanto cerca de 25% dos indivíduos sem alterações genéticas alcançaram os resultados esperados.
Os pesquisadores também avaliam que medicamentos com ação prolongada podem ajudar a contornar parcialmente essa resistência, embora mais estudos sejam necessários para confirmar essa hipótese. Ainda não está claro se o mesmo fenômeno afeta a perda de peso associada ao uso desses remédios, cada vez mais utilizados no tratamento da obesidade.
Especialistas destacam que compreender melhor os mecanismos da resistência ao GLP-1 pode abrir caminho para tratamentos mais personalizados. Entre as possibilidades futuras estão o desenvolvimento de novos medicamentos que aumentem a sensibilidade ao hormônio ou adaptações nas formulações já existentes para melhorar a resposta do organismo.




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